Por que a chuva foi tão intensa em Juiz de Fora? Entenda o papel do relevo e do oceano quente

  • 24/02/2026
(Foto: Reprodução)
Chuva provoca tragédia em Juiz de Fora, onde 16 pessoas morreram A geografia de Juiz de Fora ajudou a intensificar a chuva que já deixou mais de 20 mortos e dezenas de desaparecidos na cidade e em Ubá, a pouco mais de 100 km de distância. Segundo especialistas ouvidos pelo g1, o relevo acidentado da Zona da Mata funcionou como um “gatilho local”, potencializando um cenário atmosférico já favorável a temporais de verão. Grande parte de Juiz de Fora é formada por morros e serras, com altitudes que variam de cerca de 470 metros a quase 1.000 metros. A cidade está situada em uma espécie de vale cercado por paredões naturais — uma configuração que favorece o confinamento de nuvens de chuva quando sistemas meteorológicos estão direcionados para a região. Nesta segunda-feira (23), a cidade enfrentou um temporal que acumulou mais de 190 milímetros de chuva em oito horas. No mês, a cidade mineira já acumulou quase 600 mm. Toda essa chuva tem relação com uma série de fatores meteorológicos que atuam sobre todo o Sudeste, mas que ganharam força com o relevo local. Chuvas deixam mortos em Juiz de Fora Departamento dos Bombeiros de MG/ via AFP Como isso aconteceu? Nos últimos dias, uma frente fria ficou estacionada no litoral do Sudeste. Essa frente, embora não fosse intensa, ajudou a canalizar um corredor de umidade vindo da Amazônia. Esse fluxo atravessou o Sudeste, passou por Minas Gerais e alimentou as nuvens sobre a região. Ao mesmo tempo, o oceano na região está até 3 °C mais quente que a média, com temperaturas próximas de 29 °C. A água mais quente aumenta a evaporação e a quantidade de umidade disponível na atmosfera, funcionando como combustível para a formação de tempestades. Chuvas deixam mortos em Juiz de Fora Corpo de Bombeiros de MG/ via AFP ➡️ Esse ambiente é comparável a uma panela de água no fogo: quando a água ferve, a gente sabe que ela vai borbulhar, mas não exatamente onde surgirá a próxima bolha. Esse processo acontece também na atmosfera e é chamado de convecção. Ao mesmo tempo, a entrada de ventos mais frios e úmidos vindos do oceano favoreceu o encontro entre ar quente e ar frio, intensificando a formação de nuvens do tipo cumulonimbus — associadas a temporais fortes. Elas podem se espalhar ou se concentrar no mesmo local, dependendo das condições do terreno. Temporal em Juiz de Fora Kayan Albertin/Arte g1 Nessa analogia, as bolhas são como as nuvens, que acabam surgindo mais carregadas em uma área do que em outra. Aqui é que entra a questão do relevo: em Juiz de Fora, os morros forçaram a subida do ar úmido, favoreceram a formação de nuvens mais carregadas e contribuíram para que o temporal permanecesse sobre a cidade por horas. “A interação desse cenário de grande escala com o relevo na pequena escala faz com que, em algumas áreas, haja nuvens mais carregadas. Ou seja, o relevo acaba fazendo a chuva ser mais intensa e mais concentrada”, explica o meteorologista do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), Giovani Dolif. Esse fenômeno também ampliou a área atingida. Para se ter uma dimensão, em Mangaratiba, por exemplo, no Rio de Janeiro, no mesmo período a chuva acumulou mais de 200 milímetros, um volume maior que o de Juiz de Fora. No entanto, o impacto não foi o mesmo. “Essa chuva foi generalizada, ela não ficou concentrada em uma área da cidade, e isso faz com que haja mais impactos. O que a gente percebe é que isso pode ter acontecido pela reação do cenário meteorológico com a própria cidade”, explica Pedro Camarinha, especialista em desastres e diretor do Cemaden. Chuva se transformou em desastre por vulnerabilidade Há ainda outro fator: a vulnerabilidade da cidade aos desastres. Quando a água caiu sobre encostas íngremes, desceu com rapidez, formando enxurradas e sobrecarregando a rede de drenagem. Em áreas ocupadas e com moradias em encostas, houve uma série de deslizamentos de terra que levaram às mortes. E isso já era sabido: há cerca de um ano, em 26 de fevereiro de 2025, a então diretora do Cemaden, Regina Alvalá, alertou que 130 mil moradores de Juiz de Fora viviam em áreas de risco. No ano anterior, em 2024, a cidade era a quarta no ranking nacional em ocorrências de risco geológico, como deslizamentos de terra. Um levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que analisou as áreas de risco no país, mostrou que Juiz de Fora estava no 12º lugar no ranking nacional, com mais de 128 mil pessoas em áreas vulneráveis. “A forma como a cidade é ocupada é uma questão-chave. Há moradores em encostas, em áreas de risco, e isso faz com que toda chuva seja um risco. Quando há um volume maior, vemos uma tragédia”, explica Giovani Dolif. Risco segue nos próximos dias De acordo com o Cemaden, o alerta extremo deve seguir sobre a cidade. Isso porque o solo já está muito encharcado e a chuva deve voltar com intensidade entre quinta-feira (26) e sexta-feira (27). A cidade está em situação de calamidade pública e foi montado um esquema de acompanhamento para atender os atingidos e também fazer a proteção para os possíveis riscos dos próximos dias.

FONTE: https://g1.globo.com/meio-ambiente/noticia/2026/02/24/por-que-a-chuva-foi-tao-intensa-em-juiz-de-fora-entenda-o-papel-do-relevo-e-do-oceano-quente.ghtml


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